Teatro Sesc Taguatinga Norte recebe a estreia do espetáculo “Raízes em Movimento”
A Companhia Afro Contemporânea Corpus Entre Mundos estreia em Brasília o espetáculo Raízes em Movimento, uma criação que celebra a dança como herança viva, atravessada por ancestralidade, memória coletiva e invenção de futuros possíveis. Dessa maneira, as apresentações acontecem de sexta-feira (30) a domingo (1), no Teatro Sesc Taguatinga Norte, e seguem para o Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul, de 6 a 8 de fevereiro.
Assim, resultado da 5ª Residência Artística da companhia, iniciada no dia 19, a montagem nasce de um processo intenso de convivência, pesquisa e escuta. Segundo a direção artística, a residência foi o próprio ponto de partida da dramaturgia:
“A residência foi o próprio chão de onde o espetáculo brotou. Não partimos de uma dramaturgia fechada, mas de um campo de escuta profunda: dos corpos, das histórias individuais e das memórias compartilhadas”, explica Lenna Siqueira. “O convívio diário, a troca constante e o tempo dilatado de pesquisa permitiram que a dramaturgia fosse se escrevendo no corpo, nos gestos, nos silêncios e nas fricções entre os intérpretes.”
Ancestralidade, memória e futuro se misturam em cena
A princípio, na cena, ancestralidade, memória e futuro se encontram como um fluxo contínuo. Para Lenna, essas dimensões atravessam o movimento dos bailarinos sem se apresentarem como camadas separadas. Ela afirma:
“A ancestralidade surge como força motriz, como pulsação que sustenta o corpo; a memória aparece tanto no gesto herdado quanto no gesto reinventado; e o futuro se manifesta na possibilidade de transformação, na criação de novos imaginários corporais”
“Criamos movimentos que reverenciam o passado sem se fixar nele, abrindo espaço para futuros possíveis, sensíveis e plurais.”
Espaço de transformação social
Nesse sentido, mais do que um processo criativo, Raízes em Movimento também se afirma como espaço de formação, inclusão e transformação social. A residência artística envolve artistas negros, periféricos, trans/travestis e PcD, propondo uma vivência integral que atravessa criação, produção, iluminação, figurino e gestão. A diretora destaca:
“Para nós, não faz sentido dissociar criação artística de responsabilidade social. Pensar o espetáculo como espaço de aprendizado é reconhecer que o conhecimento se constrói coletivamente”
E enfatiza:
“A inclusão e a empregabilidade fazem parte desse compromisso: criar condições reais para que artistas tenham acesso, permanência e autonomia no campo da dança.”
Além disso, este ano em que a Corpus Entre Mundos completa 13 anos de trajetória, o espetáculo marca um momento de maturidade e reinvenção da companhia, reforçado pelo apoio do Edital Funarte Ações Continuadas 2026. “Esse apoio é fundamental para a existência de companhias criadas e conduzidas por artistas negros. Ele garante continuidade, pesquisa e impacto social”, afirma Lenna.
Construção da obra
A vivência transatlântica entre Angola e Brasil também atravessa a construção estética e simbólica da obra. Embora coletiva, a criação dialoga com experiências da diáspora africana, articulando ritmos, gestualidades e imaginários que cruzam o Atlântico. “Em Raízes em Movimento, propomos compreender as fases do crescimento da vida e reconhecer a força que carregamos na nossa história”, explica a diretora.
Desse modo, como mulher negra à frente da direção artística da Corpus Entre Mundos, Lenna Siqueira ressalta que suas escolhas criativas partem da ancestralidade como força ativa. Ela comenta:
“A ancestralidade, para mim, não é um tema a ser representado, mas algo que orienta o modo como penso o corpo, o tempo e a relação com o outro. O corpo é arquivo e território político”
Por fim a diretora relata que busca criar cenas em que o movimento não seja apenas forma, mas também lembrança e projeção. Um gesto que carrega histórias apagadas e, ao mesmo tempo, imagina futuros possíveis. Para ela, Raízes em Movimento se constrói no trânsito entre tradição e invenção.
“Nossas raízes não nos prendem, elas nos impulsionam.”
*Com informações do Jornal Brasília.
Por: Maria Luiza Couto.
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